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2021 trouxe muitos aprendizados, desafios e mudanças. Nos tornamos mais resilientes, nos aperfeiçoamos em áreas do conhecimento e em novas tecnologias e aprofundamos debates necessários para a sustentabilidade social e empresarial. Mas as mudanças não param e as nossas dúvidas e incertezas sobre o futuro estão latentes. Como será 2022? Que sinais de mudanças já conseguimos vislumbrar? O que esperar da tecnologia, da economia, da geopolítica, dos recursos naturais e dos comportamentos sociais? 

Para tentar responder alguma dessas perguntas, o time de Inovação do IEL/RS selecionou as principais tendências e insights para 2022+. Os conteúdos selecionados compõem o serviço Curadoria de Tendências – COSMOS do IEL/RS e estão ancorados no monitoramento de 80 forças de mudança que podem influenciar o futuro dos negócios. 

Para quem não conhece, a Curadoria de Tendências COSMOS é o trabalho de, em um universo infinito de mudanças, selecionar, organizar e analisar as tendências que possuem maior impacto na atuação das empresas em médio e longo prazo, trazendo insights que podem ser utilizados para o desenho de estratégias, desenvolvimento de produto e suporte para posicionamento de mercado. 

 A nossa ideia é gerar reflexões e provocações que permitam a criação de iniciativas inovadoras, alinhadas ao espírito do tempo. Cabe a cada um de nós entender onde existe oportunidade e risco. Boa leitura!

 

1. Olhar para futuros 

Uma perspectiva sobre a criação de cenários futuros como apoio na construção de estratégias para os negócios. 

- Paradigma do Short-Thermism

O Short-Termism ou “visão de curto prazo” é um termo atribuído aos atuais sistemas de governança que concentram a maior parte dos esforços no presente, muitas vezes negligenciando interesses futuros. Isso se torna um paradigma pois, no processo de tomada de decisões, os negócios buscam proteger seus interesses do presente, enquanto gerações futuras são obviamente incapazes de defenderem seus próprios interesses. Soluções em longo prazo sequer são tentadas porque os problemas em curto prazo são prioritários. 

Alguns países desenvolvidos já têm trabalhado para mudar este paradigma, como a Suécia e o País de Gales, onde foram criados projetos e leis que exigem o compromisso dos governos na realização de metas de longo prazo. Segundo o Corporate Horizon Index da McKinsey, as empresas com um olhar de longo prazo superaram em 47% o crescimento da receita se comparadas às empresas orientadas ao curto prazo, além de sofrer menos e se recuperar mais rápido das inevitáveis crises. 

O IEL/RS tem acompanhado ações nesse sentido e um bom exemplo é o trabalho do BENTO+20, uma iniciativa de tríplice hélice (sociedade civil organizada, academia e poder público) com um objetivo comum de indicar caminhos para o crescimento e desenvolvimento pleno e sustentável do município de Bento Gonçalves/RS através de uma prospecção de futuros possíveis e desejados, uma abordagem que pode romper o paradigma estabelecido e possibilitar um olhar de mais longo prazo para negócios, governos e sociedade.

- Propagação de doenças infecciosas

Com a intensificação de fluxos migratórios gerados voluntariamente ou involuntariamente por problemas ambientais, sociais e econômicos, a propagação de doenças infecciosas e epidemias será cada vez mais complexa e desafiadora, exigindo maior coordenação em períodos de emergência. A pandemia do vírus SARS-CoV-2 desencadeada entre os anos de 2019 e 2020 ainda traz impactos profundos na vida das pessoas e, consequentemente, nos negócios. 

 A dificuldade de desenvolver sistemas de saúde abrangentes para o atendimento primário cria vulnerabilidade para combater futuros surtos e se adaptar às medidas necessárias, como protagonizamos no período que se estende de março de 2020 até o presente. A aceleração do uso de ferramentas digitais aponta para um cenário que permita entender a movimentação das pessoas e compreender como um vírus se espalha em tempo real, possibilitando desenhar estratégias de intervenção pública e adaptação aos novos modelos de trabalho e convívio aplicados. 

Enquanto isso, as novas tecnologias proporcionadas pela Indústria 4.0 na pesquisa biomédica, dados móveis e comunicações, muitas vezes desenvolvidas por atores não tradicionais, estão oferecendo às pessoas novas oportunidades para combater e se adaptar cada vez mais rápido às situações de crise e até mesmo repensar suas carreiras. Uma recente pesquisa do Great Places to Work (GPTW) aponta que mais de 30% dos respondentes afirmam que as empresas onde trabalham já adotaram uma nova política em relação ao formato de trabalho e, entre esses, quase 78% assumirão o modelo híbrido no contexto “pós-pandemia COVID 19”. No Brasil, 64% das pessoas ouvidas afirmaram que a flexibilidade do modelo afetará sua decisão de continuar nas empresas.

 

Com que frequência temos pensado nas possibilidades de futuros, com um olhar para as mudanças que estão acontecendo?

 

2. Economia da experiência

Perspectiva sobre uma nova experiência de consumo que a aceleração da adoção de tecnologias está trazendo. 

- Era da experiência

Na era da experiência, toda interação gera uma experiência. Ou seja, a interação que uma empresa possui com clientes, funcionários ou usuários, que pode ser intencional ou acidental, positiva ou negativa, tem como resultado sentimentos. Os relacionamentos positivos garantem o aumento do valor percebido pelo usuário. Cada vez mais as pessoas estão empoderadas pela tecnologia e esperam mais, reclamam mais, estão mais dispostas a trocar fornecedores ou empregadores e compartilham muito mais suas experiências.  

Para as empresas, isso pode ser um desafio, porque os consumidores não fazem mais as suas escolhas necessariamente pelo preço ou pelo produto, mas pela transparência e qualidade da experiência, o que pode ser entendido como uma grande oportunidade de colocar o usuário no centro da estratégia do negócio. O comércio digital possibilita funcionalidades de recomendação e comparação de preços, gerando uma experiência positiva. No entanto, a melhor estratégia está em mesclar o mundo digital e físico como uma experiência única, o que se tem definido como “experiência figital ou fisital”. A Amaro, marca de lifestyle feminina que atua como e-commerce, é um caso de sucesso dessa "mistura" ao incluir guide shops físicas na sua estratégia de venda. As lojas físicas possuem mostruários dos produtos, mas sem estoque. Os clientes podem olhar e experimentar os produtos e comprá-los por tablets on-line espalhados pela loja. As compras a partir dessa experiência representam 20% do faturamento da marca.

- Realidade mista

A realidade mista (MR) é a união de mundos reais e virtuais para produzir ambientes onde objetos físicos e digitais coexistem e interagem em tempo real. A realidade mista abrange a realidade aumentada (AR) e a realidade virtual (VR) através de tecnologia imersiva. A VR é a criação de um mundo digitalizado que pode ser visualizado através de óculos ou outro dispositivo, imergindo o usuário em um lugar completamente diferente, enquanto a AR cria objetos virtuais em um contexto de realidade através de dispositivos móveis. 

Com o desenvolvimento dessas tecnologias, além da visão, outros sentidos estão sendo incorporados, como audição, olfato, paladar e tato. A qualidade imersiva tem aumentado consideravelmente enquanto os custos de desenvolvimento estão baixando. A utilização se concentrava em jogos, eventos ao vivo e entretenimento, mas a proposição da criação de metaversos apresentou diversas oportunidades e estendeu a utilização de um mundo virtual para os ambientes corporativos e aplicações mais amplas na saúde, educação e defesa. 

Caso a tecnologia cumpra suas promessas, ela pode valer tanto quanto a IoT (internet das coisas), cujo valor global projetado para 2026 ultrapassa a marca dos US$ 1,3 trilhão

Estamos prontos para promover novas experiências de consumo e cocriação aos nossos clientes e usuários?

3. Novos modelos produtivos

Uma perspectiva sobre novas tecnologias, lógicas de extração, produção, retorno e reinserção de materiais nas cadeias produtivas industriais. 

- Indústria 4.0

Indústria 4.0 é a combinação de tecnologias digitais que têm o potencial de mudar fábricas, da mesma forma que aconteceu com as outras revoluções industriais (máquinas a vapor, eletricidade, informação). Ela está sendo impulsionada à medida que várias tecnologias emergentes convergem, como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão 3D, computação quântica e nanotecnologia. Esse movimento introduz o que tem sido chamado de smartfactory, uma dinâmica na qual sistemas cyber-físicos monitoram processos da fábrica e fazem decisões descentralizadas, gerando maior confiabilidade e custos mais baixos. 

Porém, essa convergência deve acender um alerta para a cibersegurança no setor produtivo nos próximos anos, direcionando mais investimentos para o assunto. Mais de 70% das empresas revelaram que, nesse momento “pós-pandemia”, estão mais preocupadas com a segurança de seus dados. Ataques cibernéticos já são e representarão uma ameaça cada vez maior em segurança de dados empresariais e governamentais nos próximos anos. Com a crescente digitalização de processos, o número de negócios vulneráveis tem aumentado. No primeiro trimestre de 2021, o Brasil foi o líder no ranking latino de ataques cibernéticos, vítima de 3,2 bilhões de tentativas. O número é quase metade das 7 bilhões de tentativas notificadas em toda a América Latina. À medida em que as violações cibernéticas continuam subindo, tecnologias e processos para evitar ataques também aumentarão. Porém, mecanismos efetivos para garantir a segurança contra ciberataques poderão surgir apenas em 2030. 

Como essa quarta revolução industrial trata de uma miríade de várias tecnologias e habilidades, compreende-se que esse processo é uma jornada, com alguns princípios que podem orientar o que pode ser considerada uma indústria 4.0: 

  • Interoperabildiade: comunicação entre máquinas, sensores e pessoas; 
  • Transparência da informação: sistemas com informações contextualizadas; 
  • Assistência técnica: máquinas apoiando humanos na tomada de decisão e em atividades difíceis; 
  • Decisões descentralizadas: autonomia para os sistemas tomarem decisões sozinhos.

- Economia Circular

A economia circular busca dissociar o crescimento econômico do esgotamento dos recursos naturais e ecossistemas, utilizando-os de forma mais eficaz. Por definição, é um motor de inovação nas áreas de reutilização de materiais, componentes e produtos capaz de gerar novos modelos de negócios, soluções e serviços.  

O crescimento populacional, a escassez de recursos, a demanda por transparência em relação à cadeia de abastecimento e a tomada de consciência – por parte das empresas e dos consumidores – dos resíduos gerados por sistemas de consumo lineares colaboram para um mercado que pode gerar pelo menos um adicional de U$ 1 trilhão por ano até 2025

Existem diversos casos de negócios onde o conceito já é aplicado e editais com linhas de apoio disponíveis para as indústrias que têm interesse no desenvolvimento de projetos que incluam a lógica circular.

Meu negócio está seguro? Há mecanismos que contribuam com o aumento da segurança de dados da minha empresa?
Como os impactos ambientais influenciam o meu produto ou o meu modelo de negócio?

4. Novos comportamentos

Uma perspectiva sobre os novos comportamentos das empresas e dos consumidores no que diz respeito ao encontro de gerações e ao posicionamento dos negócios na sociedade. 

- Novas gerações na força de trabalho

A natureza do trabalho está sendo redefinida à medida que diferentes gerações entram e saem do mercado em meio a um panorama tecnológico em mudança. 

Pesquisas sobre millenials (geração Y, nascidos entre 1985 - 1995) indicam que as principais expectativas sobre trabalhar recaem sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, independência e empreendedorismo. A concorrência de talentos é feroz e tudo indica que empresas orientadas por propósito, com equilíbrio entre gênero, cultura, habilidades e experiência em contextos multidisciplinares, atraem mais talentos. 

A geração Z (nascidos entre 1995 - 2010), com uma mentalidade "do-it-myself" e espírito empreendedor, cresceu na internet e assistiu pessoas de sua idade criarem empresas de sucesso. Buscam empregadores que não façam microgestão, que deem oportunidades para criar processos e soluções e valorizem suas ideias. 

O desafio dos líderes é criar ambientes de trabalho que aproveitem os benefícios de até cinco gerações trabalhando juntas, muitas vezes com características bastante distintas.

- Empresas com propósito

Cada vez mais aumenta a preocupação das empresas em transmitirem sua relevância para a sociedade. Com a confiança sobre governos limitada, o setor privado conseguia manter uma imagem de ente preocupado com o desenvolvimento econômico e íntegro. Entretanto, com constantes escândalos com impactos negativos como corrupção, danos ambientais, exploração da mão de obra e descaso com os problemas reais dos consumidores, não se encontram mais referências de credibilidade na sociedade. 

O consumidor não quer mais uma oferta artificial, pasteurizada por um excesso de comerciais tentando convencê-lo de que ele será mais feliz com aquele produto. As pessoas querem retornar para produtos reais, de vendedores reais que escutam e falam – seja on-line ou off-line. 

Uma organização sem propósito gerencia pessoas e recursos, enquanto uma organização com propósito mobiliza pessoas e recursos. Segundo pesquisa recente, as empresas movidas por um propósito maior – como trazer significado e impacto positivo no mundo – têm retorno financeiro de até 5,5 vezes a média das empresas que têm ações na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo). 

Chegamos em um ponto onde não há retorno. Pensar e agir em prol de um mundo mais sustentável, justo e responsável não é mais um diferencial corporativo, e sim uma necessidade primária. Empresas que se comprometem com esses valores geram uma imagem melhor na mente de seus consumidores, além de estarem colaborando para a criação de um futuro mais sustentável. Negócios que se comprometem com cada um dos temas ESG (sigla, em inglês, para Environmental, Social and Governance) têm uma operação mais eficiente em diversos aspectos, não somente na questão de sustentabilidade.

Na era da experiência e do propósito, qual a relevância da minha organização para a sociedade?

5. Novos trabalhos

Uma perspectiva sobre novas formas de trabalho, abordando alguns aspectos legais e a obtenção de novas habilidades necessárias ao mundo corporativo. 

- Relações legais das novas formas de trabalho

Pesquisas publicadas recentemente nos EUA demonstram que uma proporção significativa do crescimento líquido do emprego desde 2005 ocorreu na categoria independente ou autônoma – o que significa que o que atualmente é considerado trabalho “não padrão” pode se tornar a nova norma. 

A classificação dos trabalhadores e a regulamentação trabalhista precisam ser atualizadas para atender às necessidades de segmentos crescentes da força de trabalho, tanto nas economias avançadas quanto nas em desenvolvimento. 

Por volta de 2027, por exemplo, estima-se que mais da metade dos trabalhadores de economias desenvolvidas se enquadrem na categoria de “trabalhadores independentes”. No entanto, o padrão legal atual para o que constitui um empregado versus um trabalhador contratual é vago. Há necessidade de ações para ajudar a reconhecer melhor uma gama mais ampla de modelos de trabalho. 

Com a pandemia, inclusive, o trabalho remoto evidenciou muitas lacunas que ainda devem ser preenchidas em termos legais para que as pessoas se adaptem às novas realidades trazidas para o mundo do trabalho.

- Novas formas de aprendizado

A maneira de educar tem mudado profundamente devido ao aumento da conectividade, ao uso de computadores, smartphones e aplicativos baseados na web, às novas abordagens pedagógicas e a uma ênfase na aprendizagem ao longo da vida, o chamado lifelong learning [educação continuada]

Como resultado, o alcance da educação está aumentando. No entanto, ainda há importantes desafios, como garantir educação inclusiva e de qualidade. À medida que professores desenvolvem atividades de aprendizado personalizadas para os alunos, torna-se muito claro que a sala de aula tradicional não funciona mais. Neste contexto, as escolas estão redesenhando espaços e experiências e incluindo recursos digitais em sua metodologia, como ocorre com a gameficação através de jogos digitais, por exemplo. 

Na educação profissional, o aumento da necessidade por acesso a competências cada vez mais rápido tem tornado os ciclos de aprendizagem mais curtos e focados em habilidades específicas, o que abre uma oportunidade para as “empresas escola”, onde os setores de RH podem ser um ponto de contato para o incremento contínuo de novas habilidades nas equipes. 

Quais as habilidades comportamentais devemos desenvolver para este novo mundo do trabalho?

 

Especialmente para países que não apresentam grande desenvolvimento econômico e social, a frustração e o descontentamento no “pós-COVID” ficam latentes. Essa situação poderá se agravar com o início da 4ª Revolução Industrial e o impacto das tecnologias sobre o desemprego.  

Nesta nova realidade, a cooperação nunca foi tão crucial na formulação de soluções para incertezas globais, e promovê-la entre as partes interessadas, públicas e privadas, será fundamental para aliar o crescimento econômico à inclusão social.  

Este movimento exigirá cada vez mais lideranças com capacidade de reconhecer os desafios que o mundo enfrenta e fazer conexões entre eles, exigindo um compromisso mais profundo com o desenvolvimento inclusivo e o crescimento equitativo em níveis local e global. 

Se você quer ampliar sua visão sobre o assunto e quer se preparar para o futuro, conte com o IEL/RS! 

sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021 - 13h13

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